quarta-feira, 25 de julho de 2012

As imitações do Arcaico até o Renascimento: Modelos literários de emulações

Por muitas vezes ouvimos pessoas dizerem que nada se cria, mas tudo se copia. A princípio pode sugerir uma falta de criatividade, inovação. A ideia de imitação não é ruim, uma vez que bem interpretada. Repetir em uma música, notas idênticas da outra não é cabível. Porém ouvir uma música de Chico Buarque e conseguir reproduzir a ideia em outro poema, se torna fantástico. O Renascimento surgiu fundamentado em não utilizar a arte medieval, mas em buscar nos Clássicos um modelo. Imitar os Clássicos significava conhecê-los, e isso era grandioso para seus reprodutores.
Em Marília de Dirceu é escrito “eu Marília, não vivo de cuidar de alheio gado”.  Alguns interpretaram antigamente que o escritor diz: “não imitarei outros escritos”. Na verdade Tomás Antônio Gonzaga imita aqui um poeta antigo que dizia “eu não vivo de cuidar de versos alheios”. O sentido de gado aqui representa os versos enquanto pastor representa poeta.
Homero compôs Ilíada e Odisséia, certamente imitando algum modelo anterior.  Virgilio ao compor Eneida imitou Homero e Camões ao criar Lusíadas imita os dois. Partimos pela análise das personagens heróicas. Tanto Odisseu, quanto Enéias e também Vasco da Gama são navegadores que enfrentam a tempestade e fazem o discurso da bela morte.
Quando Páris sequestra Helena, os aqueus se juntam e saem para resgatá-la. Odisseu se finge de louco e Aquiles se veste de mulher para não irem à guerra, mas são desmascarados e obrigados a partirem. Esta é a Ilíada, que narra a partida até Tróia.  Aquiles morre antes de entrar na fortaleza. Odisseu sobrevive e luta na cidade grega. Ilíada só vai até seu final graças a Odisseu. Temos aqui uma clara evidência de que Odisséia emulou Ilíada.
Emular não é apenas imitar, mas superar o modelo imitado. Camões no primeiro canto de Os Lusíadas traz “Cessem do Sábio Grego e do Troiano (Odisseu grego e Enéias troiano) / As navegações que fizeram; [...] Cesse tudo o que a musa antiga canta,/ que outro valor mais alto se alevanta. O poeta português traz os modelos Clássicos de Homero e Virgílio, porém deixando claro que o trajeto percorrido por Vasco da Gama e sua história têm mais valor.
Para entendermos a delicadeza de cada imitação e o cuidado de quem imita, podemos estudar cada parte que foi emulada. Na Odisséia, temos a preposição onde é cantado o varão (herói) e temos a invocação da Musa. Nosso olhar agora se direciona da seguinte forma: Quem narra a história é uma Musa que esteve presente quando os fatos ocorreram. Homero então apenas escreve o que ela dita. O nome de Odisseu aparece no primeiro canto depois do vigésimo verso. Odisseu só irá aparecer no quinto canto. Posteriormente volta a Musa a narrar. Esta composição é chamada de “composição em anel”.
Odisséia não começa em medias rés, ou seja, no meio da ação. Começa em ab ouvo que significa desde ovo. Poetas que compõe desta forma são chamados “cíclicos”.
O quinto canto da Odisséia já começa com Odisseu enfrentando a tempestade. A Eneida, logo no primeiro canto começa com Enéias enfrentando a tempestade. Mas se Virgilio imitou Homero, como se explicaria o fato de um começar em ab ouvo e o outro em medias rés? A imitação não teria sido feita com fidelidade? Sim, a emulação foi feita com maestria. O que acontece é que muitos críticos antigos, como Aristarco e Aristófanes, não consideravam os quatro primeiros cantos como parte integrante da Odisséia e sim parte de outro livro costurado por um rapsodo (poeta que costurava os livros), ao livro de Homero. Para muitos, os quatro primeiros livros são chamados Telemaquia, uma vez que conta a história de Telêmaco, filho de Odisseu.
A imitação é uma arte quando bem feita, respeita a caracterização do modelo seguido, tornando-se então uma alternativa artística para a composição das sociedades históricas ao longo do tempo. E assim o desejo de emular uma rica obra, nos leva cada vez mais ao estudo do detalhamento e a busca da perfeição.