Morte e Vida Severina: O aspecto da
morte (por Caio da Ega)
Morte
e Vida Severina (1954-1955) é uma obra literária que relata as dificuldades do
povo sertanejo que migra em busca de uma condição de melhor vida e que em
alguns casos migra em busca da sobrevivência.
Denominado
por seu autor um “auto de natal pernambucano”, Morte e Vida Severina é um poema dramático já definitivamente
incorporado à sensibilidade nacional, lido, representado, musicado e
televisionado, proibido e liberado, sendo sem dúvida um dos pontos culminantes
da poesia social brasileira, a qual justamente no Nordeste encontrou seus mais
autênticos cultores, de Castro Alves e de Augusto dos Anjos até João Cabral de
Melo Neto. [1]
O
poema possui rimas, embora elas não sejam regulares. A obra é estruturalmente
divida em dezoito episódios, sendo que os nove primeiros contam a trajetória de
Severino antes chegar ao Recife e os demais contam a história a partir de sua
chegada a esta cidade.
A
obra traz consigo, entre outros aspectos, o da morte, que está sempre em contraposição
ao aspecto da vida, em uma batalha dramática.
Já
de inicio, Severino que é retirante, tenta explicar sua origem e seu propósito
de emigrar.
A
auto-apresentação do personagem, na fala inicial do texto, nos mostra um
Severino que, quanto mais se define, menos se individualiza, pois seus traços
biográficos são sempre partilhados por outros homens. [2]
Severino
mostra representar um personagem “tipo”, pois igual a ele, existem tantos
outros Severinos, iguais em tudo, inclusive nas dificuldades.
Mas
isso ainda diz pouco:
se
ao menos mais cinco havia
com
nome de Severino
filhos
de tantas Marias
mulheres
de outros tantos,
já
finados, Zacarias,[...]
[...]
Somos muitos Severinos
iguais
em tudo na vida [...]
Nesta
primeira parte intitulada O retirante explica
ao leitor quem é e a que vai, o narrador já explicita as dificuldades em se
manter vivo naquele local. A morte ronda o sertanejo, fazendo com que todos
morram de “morte igual, mesma morte severina”. Pode-se entender que a morte
recebe esse nome (severina), por representar a vida vivida por esses “tipos”,
Severinos.
Morte
impiedosa, onde se pode morrer por emboscada pela disputa de terra, ou morrer
jovem por doenças causadas pelas condições precárias ou até mesmo a morte que
interrompe a vida mesmo antes de se nascer.
[...]
que é a morte de que se morre
de
velhice antes dos trinta,
de
emboscada antes dos vinte
de
fome um pouco por dia
(de
fraqueza e de doença
é
que a morte severina
ataca
em qualquer idade,
e
até gente não nascida).
O
episódio seguinte é intitulado Encontra
dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: “Ó irmãos das
almas! Irmãos das almas! Não fui eu que matei não!. Neste, Severino se
depara com um defunto sendo carregado em uma rede e descobre que o mesmo morreu
devido à disputa de terra, problema comum no sertão, já descrito no primeiro
episódio do poema.
-
E o que havia ele feito
irmãos
das almas,
e
o que havia ele feito
contra
a tal pássara?
-
Ter uns hectares de terra,
irmão
das almas,
de
pedra e areia lavada
que
cultivava.
Na
parte intitulada O retirante tem medo de
se extraviar porque seu guia, o Rio Capibaribe, cortou com o verão,
Severino se sente sozinho, sem ver “almas mortas nem vivas” tendo apenas a
companhia do rio. Ele então aproxima de alguma forma, a dificuldade que o rio
em seguir seu curso, devido o verão, com a dificuldade em que o calor do sertão
impõe sobre o sertanejo, impedindo-lhe muitas vezes de sobreviver.
Vejo
o Capibaribe,
como
os rios lá de cima,
é
tão pobre que nem sempre
pode
cumprir sua sina
e
no verão também corta,
com
pernas que não caminham.
Quando
Severino diz que o “rio é tão pobre que nem sempre / pode cumprir sua sina”,
parece entender que ali o rio morre por ser pobre e que por ser pobre tem a
mesma morte dos sertanejos, que é a morte severina.
Dois
episódios adiante, tem-se Cansado da
viagem o retirante pensa interrompê-la por uns instantes e procurar trabalho
ali onde se encontra, que se inicia desta maneira:
-
Desde que estou retirando
só
a morte vejo ativa,
só
a morte deparei
e
às vezes até festiva;
só
a morte tem encontrado
quem
pensava encontrar vida,
e
o pouco que não foi morte
foi
de vida severina
(aquela
vida que é menos
vivida
que defendida,
e é
ainda mais severina
para
o homem que retira).
Severino
se retira pensando em encontrar condições de sobrevivência e se depara
novamente com a morte. Ao se retirar, ele que pensava que encontraria um local
novo, cheio vida, encontra a morte por onde passa. No sertão onde se vive uma
vida severina, gasta-se mais tempo tentando defender a vida do que propriamente
vive-la.
Seguindo
o livro, chega-se ao episódio Dirige-se à
mulher na janela que depois descobre tratar-se de quem se saberá. Nesta
parte há uma contraposição entre a vida e a morte, onde o retirante tenta
encontrar trabalho. Severino tenta
mostrar suas habilidades com a terra, enquanto a rezadeira lhe apresenta
trabalhos relacionados à morte, mostrando o predomínio da mesma sobre a vida. A
rezadeira pergunta se o retirante sabe rezar, se “sabe cantar excelências, /
defuntos encomendar?”. Severino então parece estar alheio às praticas
religiosas. Esse distanciamento talvez se dê pelas dificuldades da vida do
sertanejo, onde o tempo é curto e tentar sobreviver é algo muito mais
importante do que rezar:
-
Já velei muitos defuntos,
na
serra é coisa vulgar;
mas
nunca aprendi as rezas
sei
somente acompanhar.
Depois
de tanta morte encontrada, no episódio O
retirante chega à Zona da Mata, que o faz pensar, outra vez, em interromper a
viagem, Severino tem o seu primeiro contato com a vida: “Os rios que correm
aqui / têm a água vitalícia.” E pensa em ficar: “Quem sabe se nessa terra / não
plantarei minha sina?”. Na obra a palavra sina sempre aparece dando o sentido
de “vida”, como antes analisado na passagem em que o rio Capibaribe seca com o
verão.
E
seu encontro com a vida ainda é reforçado a seguir, nesse mesmo capítulo:
Decerto
a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem
sabe da morte, severina; [...]
O
episódio Assiste ao enterro de um trabalhador
de eito e ouve o que dizem do morto aos amigos que o levaram ao cemitério,
é fundamental na contraposição entre a vida e a morte, uma vez que os
personagens que participam do enterro parecem em dados momentos, entenderem que
é melhor morrer e que na morte se tem certos benefícios que não se tem em vida.
Esses benefícios são o latifúndio, a terra que o morto queria ter em vida e só a
terá porque morreu.
-
Essa cova em que estás,
com
os palmos medida,
é
a conta menor
que
tiraste em vida.
-
É de bom tamanho
nem
largo nem fundo,
é
a parte que te cabe
neste
latifúndio.
-
Não é cova grande
é
cova media,
é
a terra que querias
ver
dividida.
E
a sina do sertanejo parece ser a terra, seja em vida trabalhando, seja morto
fazendo parte dela, enterrado, servindo o seu próprio corpo como semente:
-
Não tens mais força contigo
deixa-te
semear ao comprido.
-
Já nao levas semente viva:
teu
corpo é a própria maniva.
No
episódio O retirante resolve apressar os
passos para chegar logo ao Recife, Severino mostra vontade de viver:
O
que me fez retirar
não
foi a grande cobiça;
o
que apenas busquei
foi
defender minha vida [...]
E
mesmo defendendo a sua vida, emigrando, o retirante sabe que a morte lhe virá
em breve e sente a necessidade de tentar esticar seus dias apenas: “o que
pensei, retirando, / foi estendê-la um pouco ainda.”
O
episódio seguinte é intitulado Chegando ao
Recife, o retirante senta-se para descansar ao pé de um muro alto e caiado e
ouve, sem ser notado, a conversa de dois coveiros. Nesta parte os coveiros
fazem distinção entre o defunto rico e o pobre, além se sugerirem que os
retirantes cometessem suicídio, pulando de uma ponte qualquer, dentro do rio.
Essa sugestão faz com que Severino, no episódio seguinte, O retirante se aproxima de um dos canais do Capibaribe, pense sobre
a possibilidade de se matar, uma vez que se sente desiludido e sente que sua
caminhada foi em vão.
E
chegando, aprendo que
nessa
viagem que eu fazia,
sem
saber desde o Sertão,
meu
próprio enterro eu seguia.
Só
que devo ter chegado
adiantado
de uns dias;
o
enterro espera a porta:
o
morto ainda está com vida.
A
solução e apressar
a
morte a que decida
e
pedir a este rio,
que
vem também lá de cima,
que
me faça aquele enterro
que
o coveiro descrevia [...]
Na
parte intitulada Aproxima-se do retirante
o morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a água do rio,
Severino inicia diálogo com seu José, iniciando assim a:
[...]
transposição à paisagem nordestina dos elementos que tradicionalmente
representam a celebração do nascimento de Cristo, e a esperança num tempo mais
justo que daí decorre. A identificação entre seu José/ são José, além da
homonímia, se faz pelo ofício de ambos (a carpintaria) e pela alusão a Nazaré
(da Mata): local de origem do mestre carpina. [3]
O
menino, que “saltou para dentro da vida”, filho de seu José, trouxe a esperança
de um futuro diferente, sem tantas misérias e impulsionada pela “máquina de
homem” (coração) que “já bate nele incessante”.
Ao
final da obra, na parte O carpina fala
com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em nada, não se sabe se
Severino desistiu da ideia de se matar. O que se sabe é que seu José,
entusiasmado pelo nascimento de seu filho, aconselha o retirante a contemplar a
vida:
— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
Pelos trechos analisados, nota-se
que a morte está mais presente no cotidiano do povo sertanejo, do que a vida.
Há um confronto entre ambas, gerando uma dramaticidade intensa. No
título da obra, a morte vem em primeiro lugar, por ser mais recorrente na jornada
do protagonista. Morte e vida coexistem, embora a primeira seja mais presente,
tornando a segunda frágil e consequentemente um objetivo. Pondo a morte como um
plano de fundo, João Cabral de Melo Neto transmite de forma sedutora, o
sofrimento do sertanejo que emigra em busca do direito à sobrevivência.
[1]
Esse trecho citado foi retirado da capa do livro Morte e Vida Severina e Outros
Poemas Para Vozes, bem como todos os trechos do poema citado neste trabalho. A
capa deste livro foi criada por João Batista da Costa Aguiar e os responsáveis
pelo repertório foram Rubem Braga e Fernando Sabino.
NETO,
João Cabral de Melo. Morte e Vida
Severina e Outros Poemas Para Vozes.
Rio De Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
[2] SECCHIN, Antonio Carlos: “Do concreto ao
concreto”, in João Cabral: A Poesia do
Menos. São Paulo: Duas Cidades; Brasília: INL, Fundação Nacional
Pró-memória, p. 107, 1985.
[3] SECCHIN,
Antonio Carlos – 1985 Op. cit. Página 114
Nenhum comentário:
Postar um comentário