O tempo em Joias de família (por Caio da Ega)
O título, Joias de família, da senhora Zulmira
Ribeiro Tavares é constituído pelo trânsito no tempo. O narrador flutua entre o
passado e o presente e em poucos momentos se aventura no futuro.
A
Cicatriz de Ulisses, de Auerbach, traz algumas ideias sobre
o tempo, que são pertinentes para aproximação do mesmo, com o livro da autora
brasileira. O texto faz alguns confrontos entre a épica bíblica e a épica
homérica, inclusive sobre o tempo. Auerbach nos traz esse tema em Homero, como não
sendo importante para a experiência adquirida das personagens. O tempo não é
constitutivo, na obra do autor grego. Já na épica bíblica o tempo traz
experiências para as pessoas. Elas estão sempre aprendendo conforme o tempo segue.
O tempo impresso em As Joias de família,
aproxima-se do tempo da épica bíblica, uma vez que Maria Bráulia, ganha
experiência ao decorrer de sua vida. Ela, antes de casar, tinha um ar inocente,
talvez ludibriável. Ao final do livro, Maria mostra-se astuta, inclusive ao
saber que mais cedo ou mais tarde seu sobrinho achará que equivocou-se ao dizer
que a joia era falsa.
Ainda em A cicatriz de Ulisses, encontramos na
passagem de Abrão na Bíblia, um tempo não descrito. Não podemos dizer ao certo
em quanto tempo a cena ocorreu. Confrontamos aqui com a obra da senhora
Tavares, afinal sabemos que seu casamento atravessou o “Estado Novo”. Sabemos
por exemplo, em que período do dia seu sobrinho lhe deu a notícia sobre a joia
e também que a cena se passou no mês de maio.
Como foi observado
acima, o narrador flutua no tempo e para fins de uma melhor compreensão,
dividirei o tempo da obra da senhora Zulmira em: Pretérito, Presente, Futuro do
Presente e Pretérito do Pretérito. Essas são nomenclaturas criadas apenas para
dar melhor clareza na divisão que me propus a fazer.
Vou chamar de
Pretérito, o tempo em que Maria Bráulia, permaneceu casada. Presente, o tempo
em que seu sobrinho dá a notícia sobre a falsidade do “Sangue de Pombo”, até
por volta da chegada de Benê. Futuro do Presente, chamo o tempo relativo ao
futuro da cena presente. Pretérito do Pretérito, reservo ao tempo em que Maria
era ainda noiva de Munhoz.
O narrador começa sua
tarefa no Presente, descrevendo a protagonista e trazendo à cena, o sobrinho dando
a má notícia sobre a joia. Na página 7, já nos é dada a frase “Um rosto de tão
pouco visto por terceiros adquire a mesma modéstia do corpo murcho; [...]”. O
rosto do qual o autor fala é de Maria Bráulia. A palavra “adquire”, nos dá a
noção de Presente, assim como a expressão “corpo murcho”, que também é da mesma
pessoa e que nos é apresentado como um corpo que está nesta situação. Esse
tempo Presente é mais amplo do que a ideia de presente dos tempos verbais
morfológicos. Esse Presente refere-se ao presente momento em que o narrador nos
conta a história. O corpo da senhora adquiriu a mesma modéstia do corpo que era
murcho. Mas no tempo presente do narrador é que aparece o nosso Presente.
Segue a cena e o
sobrinho ao dizer que a joia não era verdadeira, procurou dar credibilidade no
que dizia, dizendo que o avaliador era um dos melhores do ramo. Podemos notar a
partir daqui, na página 10 e seguintes, a experiência de Bráulia, ao retrucar o
que lhe é dito. Talvez porque ela não quisesse acreditar no que ouvia, mas de
fato, ela conseguiu fazer seu sobrinho ajustar suas palavras para tentar passar
a informação de forma mais suave. Mais para frente, no livro, veremos que
quando ela era jovem e noiva de Munhoz, ela não tinha tal experiência diante
algumas situações. Vejamos então agora algumas falas que comprovam a astúcia da
protagonista no Presente:
“Minha tia, antes de
tudo peço-lhe calma, muita calma.”
E com uma pergunta, ela
responde:
“Pareço acaso nervosa?”
Depois mais abaixo, o
sobrinho continua a explicação:
“Muito bem, tia Brau,
mas espere então eu dizer tudo. Só para começar, quando ele botou o olho na
pedra...”
Ela então o interrompe:
“Na gema. Que joalheiro
é esse que chama gema de pedra?”
Podemos notar que não
se trata apenas de um “comportamento típico da idade”, como muitos chamariam. E
sim experiência de vida, adquirida com o passar do tempo, afinal ela sabia não
apenas tratar de joias, mas também desconstruir elementos da dialética. Nesse
aspecto, tendo se apresentado o tempo como um portador de experiência, podemos
aproximar a obra brasileira do tempo bíblico, já relatado em Auerbach.
Posteriormente a esta
cena, o narrador traz algo de magnífico em relação ao tempo futuro. Vejamos o
trecho do texto que diz: “Jurema irá encontrá-lo mais tarde, e hoje também
Bento, para o chope com salaminho. [...] Bento vai dar murro na mesa, mas
Jurema irá se mostrar compreensiva, dirá que não se importa [...]. À noite não
conseguirá fazer amor direito com Jurema [...].
Devemos nos atentar aos
trechos assinalados, pois eles trazem algo revelador sobre o tempo aqui
estudado. Julião sai da casa de sua tia, no tempo Presente e o narrador traz
palavras e expressões como (irá, encontrá-lo, vai dar murro na mesa, dirá,
conseguirá). Se o tempo em que Julião estava na casa de Bráulia não fosse o
Presente e sim o passado, esta narração posterior poderia ter sido feita,
dizendo que no mesmo dia mais tarde, o sobrinho encontrou Jurema, Bento deu um
murro na mesa e que o casal não conseguiu fazer amor. Claramente esta narração
é o Futuro do Presente.
Na página 22,
encontramos mais um elemento que nos permite aproximar o tempo como experiência
da bíblia, segundo Auerbach em “A
cicatriz de Ulisses”, com a obra da dona Zulmira Tavares: “Toda essa
técnica sem dúvida ela aprendera aos poucos, por “contágio”, no convívio de
anos com o juiz seu marido, muito mais velho, e que sempre fora nesse campo
mestre”. Notamos aqui que Maria Bráulia aprendeu algumas técnicas para
ludibriar as pessoas, fingindo às vezes, enxaqueca. Mas não só isso; ela
aprendeu com seu marido, que era muito mais velho que ela. Ou seja, ele poderia
ensiná-la, uma vez que adquiriu experiência com o passar do tempo.
Partimos agora para a
página 23, onde podemos tratar de alguns aspectos importantes. Esses aspectos
dizem respeito ao noivado de Bráulia com Munhoz. Poderíamos chamar esse tempo
de pretérito, mas para melhor compreensão, apenas para fins didáticos,
chamaremos de Pretérito do Pretérito. O passado que antecede o passado que para
nós é a época do casamento da protagonista. Munhoz deu na época de noivado o
“Sangue de Pombo” para sua futura esposa. Casou então impacto não só Bráulia,
mas também em sua família. Mas quando Maria pediu a seu noivo que trouxesse o
joalheiro, que lhe vendeu a joia, até sua casa e lhe apresentasse para seus
pais, Munhoz disfarçou e fugiu do assunto.
Maria Bráulia com sua
pouca experiência de vida, apesar de entristecida, achou que o “afago” dissimulado
do noivo representava respeito. E logo virou sua atenção ao rubi.
No Pretérito, algumas
coisas importantes aconteceram. Dentre elas, a desconfiança da protagonista que
pairava sobre seu marido. O amigo fisioterapeuta do juiz deixava Maria atenta
àquelas atitudes estranhas que se passavam dentro do escritório. O caso que ela
teve com Marcel, um joalheiro amigo de Munhoz, também se passa no Pretérito.
O narrador nos leva
depois ao Presente novamente, quando Benedita, afilhada de Maria Preta chega ao
apartamento 91, no Itaim Bibi. Essa cena mostra um diálogo entra a menina e a
madrinha, pertinente ao estudo aqui realizado. Maria Preta, apesar de ser uma
pessoa simples, dá uma aula sobre joias para Benê, e ainda se gaba ao dizer que
para a menina saber o que ela sabe, deveria viver muitos anos. Mais uma vez a
aproximação com o aspecto temporal bíblico de A cicatriz de Ulisses, surge na obra.
Há ainda depois desse
ponto, uma estadia no Presente e logo em seguida a narração volta para o
Pretérito e a história tem seu desfecho. O narrador apresenta um fato central;
Marcel dera para a protagonista um caboche verdadeiro. Coisa que seu marido, o
juiz não fizera.
Conclusão
Observamos nesse
estudo, que o narrador flutua entre o tempo, fazendo visitas entre o Pretérito
do Pretérito, Presente, Futuro do Presente e do Presente. O narrador não faz
essas excursões de maneira aleatória. Os tempos vão se constituindo de forma
fundamental para a composição da narrativa. Essa constituição contribui para
entendermos porque a protagonista sentiu-se mal ao saber que a joia era falsa.
Maria Bráulia tivera um marido que talvez tenha omitido sua relação com o
fisioterapeuta, mas certamente, mentiu sobre a joia. Uma mentira do passado que
ainda dói no presente. Esse passeio no tempo, que faz o narrador, nos permite
entender como a relação extraconjugal de Maria se torna importante para ela no
presente, uma vez que seu amante lhe deu um caboche verdadeiro. E isso talvez
tenha sido um dos fatos mais importantes em sua vida. O principio constitutivo da narrativa, sem
dúvida traz todos os elementos necessários para a compreensão do texto narrado,
fazendo assim que a obra tenha riqueza em sua construção.
Julio Cortázar, diz em Alguns aspectos do conto, que o conto
nocauteia o leitor, enquanto o romance vence por pontos. O livro da senhora
Zulmira, através de sua andança pelo tempo, vai-nos golpeando vagarosamente. A
cada regresso ou avanço feito pelo narrador, surge um elemento novo, crucial
para o desenlace da história. E com isso, em cada ida e vinda pelo tempo,
recebemos um golpe, que nos prende até o final.
Há uma economia interna na obra, que é escrita em apenas 81 páginas. O
tempo se condensa, apesar do fluxo realizado sobre ele, tornando assim a
leitura lacônica. O que aconteceu com Benê? E com o sobrinho? Com Maria Preta?
Não sabemos. E como diz Walter Benjamin em O
narrador, após a experiência com o narrador de Joias de família, que não é um contador de histórias, nem de longe tradicional,
tentamos preencher as lacunas deixadas por um ele, que não traz conselhos, tão
pouco ensinamentos. Mas por outro lado, nos serve como uma máquina que nos leva
a viajar através do tempo, fazendo-nos desconectar de nossa realidade.
Fontes bibliográficas:
AUEBACH, Erich. “A
cicatriz de Ulisses”. In: Mimesis. S.
Paulo: Perspectiva, 2001.
BENJAMIN,
Walter. “O narrador”. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: Magia e técnica. Arte e política. (Obras
escolhidas, vol. I). S. Paulo:Brasiliense, 2008, PP. 197-221.
CORTÁZAR,
Julio. “Alguns aspectos do conto”. In: Obra
crítica/2. S. Paulo: Civilização Brasileira, 1999.
TAVARES, Zulmira Ribeiro. Joias de família. S. Paulo: Companhia das Letras, 2003.
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