Trabalho sobre a versatilidade poética de Manuel Bandeira

A versatilidade poética em Bandeira: Análise dos poemas O Bicho e Gazal em Louvor de Hafiz (por Caio da Ega)

A versatilidade poética é uma das marcas de Bandeira, que escreveu poemas voltados para orientações clássicas, como por exemplo, Gazal em Louvor de Hafiz, e poemas voltados para orientações Modernistas, como O Bicho. Sua marca clássica permaneceu viva em suas criações, dividindo espaço com suas produções Modernistas.

A poesia de Manuel Bandeira caracteriza-se pela amplitude do âmbito,
testemunhando uma variedade criadora que vem do parnasianismo
crepuscular até as experiências concretistas, do soneto às formas mais
audazes de expressão. Doutro lado conservou e adaptou ao espírito moderno
os ritmos e formas mais regulares, de tal maneira que nenhum outro
contemporâneo revela tão acentuadamente – mas ao mesmo tempo com tanta
liberdade – a herança do mais puro lirismo português, transfundido na mais
autêntica pesquisa da nossa sensibilidade.[1]

Tanto o conhecimento Clássico, quanto o Modernista serviram de inspiração para as criações artística de Bandeira. O autor era um profundo conhecedor e admirador da literatura portuguesa. “Do contato com Silva Ramos, seu professor, e com o colega Souza da Silveira, nasce-lhe o gosto pelos clássicos portugueses; decora os episódios principais de Os Lusíadas” [2]. 
Em 1912, Bandeira participa de um concurso de poesias, mostrando seu gosto pela vanguarda do Modernismo. “Escreve os seus primeiros versos livres, sob a influência de Guilherme Apollinaire, Charles Cros, Mac-FionaLeod.” [3]
Escrevendo poemas em versos livres, o poeta contribuiu significativamente para o Movimento Modernista no Brasil, rompendo tratados convencionais literários europeus.

“O modernismo foi um movimento literário de ruptura com os valores dominantes na época, principalmente os de humanismo, racionalismo e realismo”. [4]
O Homem do Humanismo trata-se de uma figura universal e abstrata, que é contestada pelo Modernismo em função da singularidade e da concretude. A ideia de que o Homem é a medida de tudo, passa a ser atacada e essa figura passa a ser rebaixada. No poema O Bicho, de Bandeira, o eu-lírico encontra um homem na imundice de um pátio, procurando comida.

Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.

O homem que outrora era descrito na arte como o centro do universo, agora comete ações semelhantes a gatos, ratos e cães.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Há um trabalho Modernista claro nesse poema, tanto em sua forma, quanto em seu conteúdo. O poema foi construído sem rima e com linguagem coloquial, características utilizadas por esse Movimento.
Ainda considerando que os Surrealistas vagavam pelas partes “baixas”, “obscuras” das cidades, pelos subúrbios e buscavam fugir de pontos turísticos, para observarem as cidades em sua essência e assim criar suas obras, pode-se fazer um paralelo desta prática com o poema de Bandeira. Nota-se que quando o poeta traz a informação sobre um fato, logo é dado que este ocorreu em um lugar com imundice, detritos. O eu - lírico esteve de passagem por um lugar marginal; lugar esse que compõe a figura da cidade e que tanto atraí os modernistas. Passou por um pátio imundo e observou um homem onde poderia estar um cão, um gato ou um rato, mas era um homem que procurava comida porque tinha fome. Procurar algo entre detritos pode ser uma tarefa difícil, principalmente se imaginarmos que o “Bicho” está nos detritos e na imundice. Deduz-se que o mesmo não tinha acesso fácil ao seu alimento necessário, podendo levá-lo a não examinar o que encontrou, tão pouco deixá-lo de engolir com certa voracidade. Imaginando que toda essa cena se dava desta forma, pode-se depreender que “O Bicho” não estava a se importar deveras com a qualidade de seu alimento, tão pouco o que era; apenas o comia, porque sentia fome.

O poema de Bandeira relaciona-se diretamente ao espírito social, moral, político e filosófico da época, pois se pensarmos o momento em que foi escrito, o ano de 1947, lembraremos que trata do triste período do pós-guerra.[5]

A destreza de Bandeira com as palavras não se dá apenas no âmbito deste movimento. Assim como a poesia Modernista, a criação com orientações clássicas do poeta também é muito significativa, a ver por Gazal em Louvor de Hafiz.  Este é composto em dísticos, sendo no seu total, sete. Dístico, trata-se de poema composto por estrofes de dois versos e é muito utilizado em ditados populares, pois facilita a memorização. Os gazais são compostos desta forma. “O dístico é muito empregado pelo povo nos seus adágios: (‘ Água mole em pedra dura / Tanto bate até que fura’)”.[6]
O primeiro verso do primeiro dístico rima com o segundo verso do mesmo.

Escuta o gazal que fiz,
Darling em louvor de Hafiz:

A partir do segundo dístico, o primeiro verso é branco e o segundo verso vai sempre rimar com o segundo do próximo dístico.

- Poeta de Chiraz, teu verso
Tuas mágoas e as minhas diz.

Pois no mistério do mundo
Também me sinto infeliz.

A pontuação do poema mantém um padrão e Bandeira ao finalizar uma ideia em um dístico, logo em seguida o pontua. Todo segundo verso de cada dístico possui pontuação, exceto no quinto dístico, onde o segundo verso não possui, pois ele se liga diretamente com o sexto. Ao lê-los, somos obrigados a emendá-los para termos a ideia passada pelo eu-lírico.

E as filhas de Samarcanda,
cameleiros e sufis

Ainda repetem os cantos
em que choras e sorris.

No sétimo dístico, a pontuação volta ao padrão anterior. As rimas constituídas por (-iz e –is), dão uma sonoridade agradável ao poema. Estas produzem um chiado, que o próprio nome do poeta homenageado traz.O ritmo em “Gazal em Louvor de Hafiz” trabalha de forma conjunta com a sonoridade e assim o poema é estruturado até seu final.
Gazal em Louvor de Hafiz é um poema que fala de amor não correspondido, onde o eu-lírico se identifica com a poesia do poeta louvado. No trecho “- Poeta de Chiraz, teu verso / Tuas mágoas e as minhas diz”, nota-se a identificação do eu-lírico com os versos compostos por Hafiz, já que estes dizem não só sobre as mágoas do homenageado, mas também do que presta o louvor. O eu - lírico entende que Hafiz sentia-se triste por não ser correspondido, assim como ele, tanto que faz uso da palavra “também”.

Pois no mistério do mundo
Também me sinto infeliz.

Essa identificação torna-se mais ainda evidente ao final do poema, onde o eu-lírico exalta Hafiz, pondo-o acima das mulheres que não o correspondem.

São pó; tu, vives Hafiz!

O poema traz uma função emotiva acentuada e faz uso da linguagem “padrão”, podendo ser lido como um poema trabalhado em estética semelhante a da escola clássica europeia. Suas características o distanciam do Modernismo, devido suas rimas regulares, seu tom sério, sua linguagem, sua busca pela elevação do poeta. Se por um lado temos em O Bicho um homem rebaixado, buscando comida no lixo, em Gazal em Louvor de Hafiz temos um homem que está em pedestal, distante do pó das “ingratas”.
Pela observação dos aspectos analisados, percebe-se que Bandeira traz em sua obra poética uma versatilidade considerável em suas poesias, transitando entre as formas clássicas e Modernistas, caracterizando esse campo amplo de criação. Essa versatilidade é sem dúvida um dos fatores que o faz um grande poeta, tornando-o alvo de estudos e admiração.




[1]  CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira. Rio de janeiro, 1977. P. 34
[2]BARBOSA, Francisco de Assis: “Cronologia da Vida e da Obra” In: Manuel Bandeira                                                                                 Poesia completa e Prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A, 1993 p. 103-105.

[3]BORBOSA, Francisco de Assis. Op. cit.

[4]BRADBURY, M.; MCFARLANE, J. O nome e a natureza do modernismo. In: _____ .Modernismo – guia geral: 1890-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 13-42.

[5]BREMEN, Lígia Maria. A Imagem da Realidade: Poesia “O Bicho” De Manuel Bandeira, 2011. Disponível em: <http://www.uel.br/eventos/eneimagem/anais2011/trabalhos/pdf/Ligia%20Maria%20Bremer.pdf> Acesso em: 31/05/2013.

[6]BANDEIRA, Manoel. Seleta Prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1997. p.                            11.

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